Só se ouviu um chute. Um chute forte, firme, realizado por alguém que calçava um Coturno. Era um militar espremido em suas vestes verde-musgo, que estavam tão apertadas que marcavam as gorduras que saltavam pelo cós da calça. Estava todo suado, fedido, nojento. Gotas de suor escorriam de suas têmporas, formavam gotas em seu buço e escorriam pelo seu queixo. Ele empunhava um fuzil e entoava à plenos pulmões palavras de dor.
A porta se abriu com força, batendo na parede e provocando um leve tremor pelas dentro do pequeno quarto. Uma família se encolhia no canto, chorando muito e falando coisas desconexas. O menino mais novo estava quieto. Permanecia encolhido nos braços da mãe, olhando aquela cena estarrecedora que parecia acontecer em câmera lenta em frente aos seus pequenos e negros olhos. Nazistas. O militar que entrara à pouco dentro do quarto, estava esbravejando com muito ódio. Agarrou a mãe pelo braço e puxou-a para perto de si. Olhou-a nos olhos, mas sem expressar piedade. Mandou ela rezar uma Ave-Maria. Porém, a jovem mãe não sabia. Era judia desde que se conhecia por gente, e nunca tinham lhe ensinado a rezar uma Ave-Maria, ou um Pai-Nosso. Ela começou a gaguejar e a chorar, de modo que suas palavras ficaram inaudíveis. Soluçava tanto que parecia que ia se engasgar com suas lágrimas a qualquer instante. O militar, que possuía um emblema com uma suástica no braço, mandou as crianças formarem uma fila indiana. Eram duas meninas e um menino.
As crianças choravam tanto ou mais do que a mãe, e o medo reinava. O homem levou todos para a rua, e jogou-os dentro de uma espécie de caminhão. Dentro dele, havia outras pessoas. Não só Judeus, mas Negros, Homossexuais, Testemunhas de Jeová e Ciganos. Todos perseguidos pelos seguidores de Hitler, que almejava por uma nação “pura”. Todos se entreolhavam, calados. Até que, um negro forte, alto e robusto, resolveu falar. O homem que estava “guardando” aquelas pessoas, deu um tiro na cabeça do Negro. Gritou depois, para todos ouvirem: “isso é para vocês verem quem é que manda nessa bosta.” Não era possível ouvir nem o barulho da respiração.
Muitas horas se passaram, e alguns ali presentes estavam dormindo. Foram acordados com gritos, empurrões e puxões. Foram tirados à força e sem nenhuma compaixão de dentro daquele caminhão. Militares entregavam uniformes para todas as pessoas, e cada uniforme possuía uma estrela de uma cor. Cada cor significava um “rótulo”. Judeus recebiam uma, homossexuais outra, e assim por diante.
Foram colocados em fila e empurrados para dentro de um campo. O campo era o famoso Auschwitz, localizado no sul da Polônia. Equipados apenas com sua vergonha, um uniforme e a tristeza, entraram nos barracões que estavam dispersos dentro do campo. Choros abafados ecoavam pelas paredes.
Alguns dias se passaram, e a família continuava unida. O menino continuava com um olhar vazio, mas chorava. Chorava porque sabia que não teria mais dias de vida. Cada dia que passava, era um dia mais perto da morte. Quando perceberam, estavam dentro de um salão junto com outras pessoas, amontoados e sujos, tirando seus uniformes com a promessa de que aquilo era apenas um banho. Quando todos estavam nus, uma porta de aço se fechou. Todos gritavam e se olhavam com medo, pois sabiam o que aquilo significava.
Um cheiro começou a penetrar no local, e gritos de socorro se tornavam cada vez mais baixos, até que cessaram de vez. A única coisa presente naquele salão, além dos corpos, era a morte. Ela estava embalando as almas de todos aqueles injustiçados, que sofreram com a ira de um homem que não possuía amor. E o mais irônico de se pensar, é que, esse homem, Adolf Hitler, queria ser artista quando era menino.
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