Passava sempre pela rua de trás, sempre o mais distante possível, preferia estar seguro quanto o impacto que suas lembranças lhe causariam pelo resto do dia. Mas não hoje, hoje ele resolveu de propósito acertar, errando o caminho da volta do trabalho.
A fachada não era nada convidativa, muito menos agradável aos olhos, a casa era envolta por uma cerca de madeira meio desgastada, e a velha construção de tijolos já não era mais como antes. A grama tomava pelo menos a metade da mureta da casinha do jardim. Saboreava com desgosto a vista, e tentava construir novos pensamentos em sua cabeça. Contornou o perímetro da casa, e ao deparar-se com a fumaça que ainda parecia sair das frestas da janela lateral, resolveu aproximar-se um pouco mais.
Bateu na porta, e apesar de saber que não ouviria voz alguma para convidar-lhe a entrar, pisou com cautela no primeiro e único degrau, com certo temor e amargura dentro de seu coração, mas precisava ter a convicção de que era tarde demais.
Tirou seu chapéu, pendurou-o em qualquer pilha de entulhos, puxou uma cadeira –que inacreditavelmente não tinha sofrido com o tempo, muito menos se desgastado com o grande acidente- e sentou-se. Vislumbrou então imagens passadas, ocorridos inalcançáveis, que o tempo fazia questão de lhe servir em uma bandeja de ilusões, adornada de culpa e remorso.
Olhou ao longe, e ao final do corredor havia uma criança (sua imagem em rosto feminino), e quando se deu conta de quem era, ela saiu correndo, estava com medo, e seu rosto antes límpido, agora mostrava feridas, queimados, e dor. Em seu ombro, pousara uma mão feminina, de toque leve e sutil, com o propósito de consolar-lhe as lágrimas que já escorriam-lhe pela face. Ao olhar o rosto da mulher, não conseguiu identificar feição alguma, mas seu coração apertava-lhe tanto o peito, que sabia que a amava, e agora, nada mais lhe adiantaria dizer o que nunca tivera coragem de falar por extremo orgulho, “eu te amo”.
As paredes nessa hora começaram a exalar um cheiro doce, cheiro esse que só sentiu há uns bons 30 anos atrás, era um cheiro de lar, de acolhimento, de amor. Sabia que agora, nada mais que fizesse iria mudar a noite de 30 anos atrás, não poderia voltar, evitar o incêndio, ou qualquer surto que havia dado. Lamentava com sua vida por isso.
Então, viu ao longe uma mulher toda de preto, ela sentou-se ao seu lado, olhou fixamente em seus olhos, e lhe estendeu a mão, ele sabia que seria outro caminho definitivo. Exitou por um momento. Então, voltara-lhe a vista a mulher doce, e a criança inocente, ambas de mãos dadas encaravam-lhe fixamente, como quem espera uma decisão. Então, sem dúvida alguma, estendeu a mão à mulher de preto, e entregou-se por completo, como quem vai ao colo da mãe, ou deleitar-se aos braços de Eros. Ele entregou-se à morte, pela sua vida.
O peso que antes o habitava, havia desaparecido como mágica, e o seu corpo agora inanimado, havia também levado o remorso. Uma luz acendia-se ao fundo de sua alma, viveria eternamente. Sabia que não se arrependeria mais, havia alcançado o que há tanto tempo procurava, o descanso pleno e eterno.
