terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Lembranças


Passava sempre pela rua de trás, sempre o mais distante possível, preferia estar seguro quanto o impacto que suas lembranças lhe causariam pelo resto do dia. Mas não hoje, hoje ele resolveu de propósito acertar, errando o caminho da volta do trabalho.
A fachada não era nada convidativa, muito menos agradável aos olhos, a casa era envolta por uma cerca de madeira meio desgastada, e a velha construção de tijolos já não era mais como antes.  A grama tomava pelo menos a metade da mureta da casinha do jardim. Saboreava com desgosto a vista, e tentava construir novos pensamentos em sua cabeça.  Contornou o perímetro da casa, e ao deparar-se com a fumaça que ainda parecia sair das frestas da janela lateral, resolveu aproximar-se um pouco mais.
Bateu na porta, e apesar de saber que não ouviria voz alguma para convidar-lhe a entrar, pisou com cautela no primeiro e único degrau, com certo temor e amargura dentro de seu coração, mas precisava ter a convicção de que era tarde demais.
Tirou seu chapéu, pendurou-o em qualquer pilha de entulhos, puxou uma cadeira –que inacreditavelmente não tinha sofrido com o tempo, muito menos se desgastado com o grande acidente- e sentou-se. Vislumbrou então imagens passadas, ocorridos inalcançáveis, que o tempo fazia questão de lhe servir em uma bandeja de ilusões, adornada de culpa e remorso.
Olhou ao longe, e ao final do corredor havia uma criança (sua imagem em rosto feminino), e quando se deu conta de quem era, ela saiu correndo, estava com medo, e seu rosto antes límpido, agora mostrava feridas, queimados, e dor.  Em seu ombro, pousara uma mão feminina, de toque leve e sutil, com o propósito de consolar-lhe as lágrimas que já escorriam-lhe pela face. Ao olhar o rosto da mulher, não conseguiu identificar feição alguma, mas seu coração apertava-lhe tanto o peito, que sabia que a amava, e agora, nada mais lhe adiantaria dizer o que nunca tivera coragem de falar por extremo orgulho, “eu te amo”.
As paredes nessa hora começaram a exalar um cheiro doce, cheiro esse que só sentiu há uns bons 30 anos atrás, era um cheiro de lar, de acolhimento, de amor. Sabia que agora, nada mais que fizesse iria mudar a noite de 30 anos atrás, não poderia voltar, evitar o incêndio, ou qualquer surto que havia dado.  Lamentava com sua vida por isso.
Então, viu ao longe uma mulher toda de preto, ela sentou-se ao seu lado, olhou fixamente em seus olhos, e lhe estendeu a mão, ele sabia que seria outro caminho definitivo. Exitou por um momento. Então, voltara-lhe a vista a mulher doce, e a criança inocente, ambas de mãos dadas encaravam-lhe fixamente, como quem espera uma decisão. Então, sem dúvida alguma, estendeu a mão à mulher de preto, e entregou-se por completo, como quem vai ao colo da mãe, ou deleitar-se aos braços de Eros. Ele entregou-se à morte, pela sua vida.
O peso que antes o habitava, havia desaparecido como mágica, e o seu corpo agora inanimado, havia também levado o remorso. Uma luz acendia-se ao fundo de sua alma, viveria eternamente.  Sabia que não se arrependeria mais, havia alcançado o que há tanto tempo procurava, o descanso pleno e eterno.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Eu mudaria por você, mais do que já mudei. Eu faria qualquer coisa que quisesse, e tudo o que precisasse. Eu passaria por cima do meu orgulho, e tudo o que sempre acreditei. Eu me reinventaria  sempre que não nos encaixássemos como antes. Eu me desdobraria, e faria tudo por você. Eu retiraria tudo o que eu disse, só para não brigarmos outra vez. Eu consideraria tudo em mim, só pensando em você. Eu pensaria mais em você, por mais impossível que isso possa parecer. Eu abriria exceções para vê-lo delinear-se em um sorriso. Eu me esqueceria das horas marcadas, e sentaria ao seu lado, mesmo que não pronunciássemos uma única palavra sequer. Eu desenharia de novo, para tornar permanente nossa existência diante à imensidão. Eu percorreria todos os perímetros para te encontrar. Eu faria portas, e construiria janelas se quisesse mais um pouco de ar. Eu iria ao fundo do infinito, para buscar-lhe qualquer sonho, ou mesmo qualquer história de escárnio, para provar-lhe sua eterna coesão. Eu deitaria ao seu lado, e deixaria qualquer compromisso de lado, só para afagar-lhe os cabelos e olhar dentro de seus olhos. Eu compraria brigas, enfrentaria os sete mares, só para defender-lhe se fosse necessário. Eu estaria ao seu lado mesmo quando todo o mundo se voltasse contra os seus conceitos.
Eu estaria sempre ali se me desse uma chance. Eu estaria pra sempre, se me permitisse estar. Então eu esperarei, e quando quiser só basta me chamar.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

 Sinto muitas saudades de você. Sinto saudades do que já se foi. Sinto saudades de suas palavras. Sinto saudades de nossas conversas, principalmente as que eram jogadas fora durante a madrugada, e nos rendiam boas risadas e confissões tímidas. Sinto saudades de ouvir sua voz, a que me acostumei a amar ouvir, e mesmo que tão persuasiva, parecesse tão frágil quando queríamos falar de nós. Sinto saudades de suas feições, suas caretas, seus sorrisos imediatistas, e as trapaças que sempre fazia com seus olhares incógnitos. Sinto saudades da sua risada, que poucas vezes pude ouvir, e que me encantara ao ser tão irônica e sutil ao mesmo tempo. Sinto saudades do planos que fazíamos, os tão insólitos, mas que faziam todo o sentido. Para nós. Sinto saudades dos ciúmes que não tínhamos coragem de dizer, e que demonstrávamos com um simples desvio de olhar, e por mais que parecesse hilário o fato de ser tão fútil, havia respeito em dar-nos liberdade, e conter-nos para não ferirmos um ao outro. Sinto saudades do seu escárnio profundo com os detalhes tão minuciosos, os meu detalhes que você dizia amar. Sinto saudades do jeito que nos lembrávamos em tudo o que nos trazia felicidade, e que também fazíamos questão de mostrar um ao outro, e nos compreendíamos profundamente, pelo fatos de sermos eu e você. Sinto saudades das promessas, das promessas que nunca foram e nunca serão cumpridas. Sinto saudades de te encontrar e de fingir que não lhe ver, só para nos conhecermos novamente, sempre e sempre. E sempre também nos apaixonarmos um pelo outro assim. Sinto saudades das ilusões, os apelidos, os corações e a atenção. Sinto saudade de sua companhia. Sinto saudades de nossas caminhadas, e do seu jeito de sempre roubar a minha atenção. Sinto saudade da primeira vez que sua mão tocou a minha com sentimento, e da sensação que tinha sempre que isso acontecia, parecendo ser sempre aquela primeira vez que nunca me esqueceria. Sinto saudade do seu sorriso, e do meu, o que nunca consegui controlar perto de você. Sinto saudade da sua minuciosidade, a perfeição que sempre buscou para me agradar. Sinto saudade dos dias que nem nos conhecíamos bem, mas a saudação que investia, e sempre me dissera que lhe entenderia profundamente.

 Sinto falta de quem você é, ou de quem você  foi. Sinto saudades de você que conheci, que compreendo, e me compreende melhor que ninguém. Sinto saudades, e quando sentir também, estarei aqui, para nos conhecermos novamente e não sentirmos mais falta de que mentimos ser um para o outro. Sermos quem somos, e se eu tiver sorte, nunca mais sentir saudades de você ou de nós.

Adeus

 Eu não sei mais o que eu penso, não entendo mais o que eu sinto, e já me perdi em ideias e filosofias que antes eram tão convictas para mim.
 Já cansei de tentar, já desisti de ter esperanças, mas algo lá no fundo (algo talvez inconsciente) me  diz que devo continuar a pensar em você como possibilidade, como um futuro talvez não cogitável, mas que o coração pede por haver uma última chance.
 Se pudesse compreender, ter controle sobre mim mesma, com certeza já estaria há milhas de distância de ti, e sequer teria desenvolvido quaisquer sentimentos por você, principalmente o amor.
 Apesar de não conseguir entender essa mudança, como tudo pode de repente virar de “cabeça para baixo”, eu continuo persistindo, como alguém que ainda espera um milagre. Tudo culpa dessa necessidade que eu tenho de você. Preciso me sentir como antes, preciso ter as ilusões passadas, e principalmente, preciso sentir que ainda faço alguma diferença na sua vida.
  Não posso entender como conseguiu mentir por tanto tempo, como conseguiu fingir, e não entendo como eu pude acreditar em tudo, mesmo sabendo que isso iria inevitavelmente acontecer.
 Está tão longe, e quanto mais perto, mais distante se torna, mais impossível fica. E eu ainda tenho medo que seja tudo culpa minha.
 Meus atos, minhas palavras, sei que talvez não sejam de todo o mal assim, porém, não consigo discernir se faço-lhe mal, ou me afogo mais ainda nos meus pensamentos tolos. Os que envolvem eu e você.
 Perdoe-me desistir, mas agora não é possível continuar. Eu vou deixar que tudo seja como sempre foi antes de toda essa ilusão. Vou deixar que se esqueçam as conversas, os sorrisos, as palavras, e vou preferir só me lembrar das despedidas. Vou tentar me lembrar do sofrimento, para que ele possa ensinar enfim ao amor, que ele não é mais bem-vindo. E se talvez um dia vê-lo novamente, tentarei lembrá-lo com carinho, mas também com dor e tristeza. 
 Então, direi adeus por mais que me doa, por mais que seja difícil, e por mais que ainda o ame. 

Só de sacanagem

Meu coração está aos pulos. Quantas vezes minha esperança será posta à prova? Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar: malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu dinheiro, do nosso dinheiro, que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, pra cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais. Esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais. Quantas vezes meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova? Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais? É certo que tempos difíceis existem pra aperfeiçoar o aprendiz. Mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz. Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: ”Não roubarás, devolva o lápis do coleguinha, esse apontador não é seu, minha filha”. Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar. Até habbeas corpus preventivo Coisa da qual nunca tinha ouvido falar E sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste Esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda eu vou ficar. Só de sacanagem. Dirão: deixa de ser boba. Desde Cabral que aqui todo mundo rouba. Eu vou dizer: não importa. Será esse o meu carnaval. Vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau. Dirão: é inútil, todo mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal. E eu direi: não admito. Minha esperança é imortal. E eu repito: ouviram? Imortal. Sei que não dá pra mudar o começo. Mas, se a gente quiser, vai dar pra mudar o final.
                                                                                                                          (Elisa Lucinda)
 Não sei se queria ter a chance de mudar, se pudesse voltar no tempo.
 Não em relação a você.
 São aquelas coisas de que você tem a certeza de que todo o esforço teria sido em vão -pelo menos por sua parte. Que nada adiantaria, porque por mais que quisesse, nada mais dependia de você, de seu coração, ou de seus desejos.
 Talvez o tempo a mais mudasse sim, e faria seus sentimentos ainda maiores, e talvez esses fossem incontroláveis. E assim, quem sabe felizmente, tenha sido melhor ser do jeito que foi. 


  Eu não me arrependo de tudo o que me trouxe infelicidade, pois de certa forma depois do sofrimento, a alegria passa por você, inundando-lhe de felicidade e confiança.
  Eu não me arrependo de nada que eu tenha feito pensando em mim, pois de certa forma, o erro estava em me arrepender por isso, e tentar acertar os caminhos, lutar por si mesmo é como servir a alguém que te põe em primeiro lugar, e faz com que você seja o centro de tudo.
  Só me arrependo do tempo. Me arrependo em não ter tido coragem de mostrar o quanto eu te amo, não ter conseguido demonstrar meus sentimentos, ter sido fria quando você estava ao meu lado…
  Me arrependo por ter pensado muito, por ter agido com sensatez, por pensar no correto, por seguir certos “clichês”, e por não ter expressado a sua importância para mim.
  Sei que nada voltará, que o tempo nunca irá se curvar aos sentimentos, que por mais que eu tente, nunca vou conseguir repetir o que daria a vida para reviver.
  Só receio um dia me arrepender por te amar…