A borra de café ainda no coador não escondia os vestígios de um café recém-passado. Servido na louça especial da coleção Tailandesa, toda detalhada a mão. Admirável trabalho manual, encantava a quem parasse para analisar. Mas agora, inteiras só restavam cinco. O pote de ‘Galletas’ de aveia nem havia sido tocado, e apesar de ser rotineiro servir-se daquelas bolachas, o pote permanecera intocado por toda a manhã. Não dera tempo. Um torrão de açúcar havia caído sobre a mesa, na tentativa de adoçar ao gosto a xícara de café. Mas caíra, caíra quando o efeito selou-se. Os belos fios extremamente lisos e negros como a noite, um pouco desarrumados, porém impecáveis. Pendiam os cabelos sobre seus ombros, sua pele fina coberta por roupão rendado de flores de crochê, combinado com seda que cobria seu delineado corpo desnudo, e escondia o pudor de si mesma. Os carismáticos olhos de mel estavam estáticos, com uma única e última lágrima escondida ao canto. E as olheiras que demonstravam uma noite inteira perdida, uma noite inteira de sofrimento, horas em claro, lamentações intensas. E decisões sombrias. O coração que não mais pulsava, estava há muito tempo congelado. E por isso resolvera calá-lo definitivamente, ao eterno sofrimento. Uma das pequenas mãos se abrira de encontro ao solo, deixando a xícara cair, e espalhando café pelo chão. Já a outra mão segurava um pequeno frasco daquela substância, listada como “Cianureto” , a decisão que tomara para aquietar seu sofrimento. Não o soltara nem mesmo com a queda, almejava tanto esta certeza, que não queria arriscar-se a deixa-la escapar. Não fazia sentido viver se parte de si mesma havia sido arrancada. Agora, era somente um corpo sem vida que encobria diversas verdades… Mas não podia alegar nada mais.
Agora, aquela última lágrima que lhe restara, caía sinuosamente pelo seu rosto.
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